quarta-feira, 4 de junho de 2008

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E O LIBERALISMO

CAPÍTULO III
“ A verdade os fará livres! ‘’
(Jô 8, 32)


Depois de haver exposto que o liberalismo é uma rebelião do homem contra a ordem natural concebida pelo Criador, que ilumina em uma organização individualista, igualitária e centralizadora, me resta lhes mostrar como o liberalismo ataca também a ordem sobrenatural, o plano da Redenção, quer dizer, em definitivo, como o liberalismo tem por finalidade destruir o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, tanto sobre o individuo como sobre a sociedade.

Em relação à ordem sobrenatural, o liberalismo proclama duas novas independências.

1 “A independência da razão e da ciência em relação à fé: é o racionalismo, para quem a razão juiz soberana e medida de verdade, se basta a si mesma e rechaça toda dominação estranha”.

É o que se chama racionalismo.

O liberalismo quer separar a razão da fé, que impõe dogmas formulados de modo definitivo, e os quais a inteligência deve se submeter. A simples hipótese de que certas verdades podem superar as capacidades da razão é completamente inadmissível. Os dogmas devem então ser submetidos à peneira da razão e da ciência, sendo ela de um modo constante, a causa dos progressos científicos. Os milagres de Jesus Cristo, a vida maravilhosa dos santos, devem ser reinterpretados e desmistificados. Será necessário distinguir cuidadosamente o “Cristo da Fé”, o construtor da fé dos apóstolos e das comunidades primitivas do “Cristo da história” que foi nada mais do que um simples homem. Vê se quanto o racionalismo se opõe à divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e à Revelação Divina!

Já expliquei como a Revolução Francesa de 1789 se fez sob a égide da deusa Razão. Já o frontispício da enciclopédia de Diderot (1751) apresentava a coroação da Razão. Quarenta anos mais tarde, a Razão deificada, se transformava em objeto de culto religioso e público:

“Três dias após a secularização, diante da assembléia de
padres, tendo á sua frente o bispo metropolitano Gobel,
Chaumente propôs solenizar este dia no que “a razão havia
retomado a supremacia”. Apressaram se em transformar em
realidade uma idéia tão nobre, ficando então decidido que o
culto da razão seria celebrado com grandiosidade em Notre
Dame de Paris, especialmente enfeitada pelo pintor David. No
topo de um monte de papelão com pinturas imitando pedras,
um pequeno templo grego com uma bela bailarina, orgulhosa
por ter sido eleita a “Deusa Razão”: coros de meninas
coroadas de flores cantavam hinos. Porém quando a festa
acabou, verificou se que a assistência não era muito numerosa;
foram depois em procissão com a Deusa Razão para visitar a
“Convenção Nacional, cujo presidente a beijou”. (20)


Este racionalismo demasiado radical, porém, não agradou a Robespierre que em Março de 1974 aplica um golpe sobre os “exagerados”:

“Ele achou que sua onipotência deveria fundar se em bases
nitidamente teológicas, e que ele coroaria sua obra
estabelecendo um culto ao Ser Supremo, em que ele seria o
Sumo Sacerdote. Pronuncia um discurso em 18 de Floreal do
ano II (7 de Maio de 1794) “sobre as relações das idéias
religiosas e morais com os princípios republicanos e sobre as
festas nacionais”; e a Convenção aprova a impressão deste
discurso. Ele afirmava que “a idéia de Ser Supremo e da
imortalidade da alma” é um constante apelo à justiça, sendo
portanto social e republicana. O novo culto será o da virtude
Foi aprovado em decreto pelo qual o povo francês reconhecia
os dois axiomas da teologia robesperiana, e uma placa
comemorativa seria posta no frontão das igrejas. Seguia se
uma lista de festas com feriado que ocupava duas colunas; a
primeira lista era do “Ser Supremo e da Natureza”; ficou
Decidido que fosse celebrada no dia “20 de Prairial” (8 de
Junho de 1794). E ela foi realmente celebrada: começou no
Jardim das Tulheiras onde uma imensa fogueira devorava uma
monstruosa imagem do ateísmo, enquanto Robespierre
pronunciava um discurso místico. Depois da multidão cantar
hinos alusivos, foi iniciado o desfile até o Campo de Marte. A
multidão seguiu um carro puxado por oito bois com bandeiras
vermelhas, enfeitado com espigas de trigo e folhagens, tendo
por cima entronizada a estátua da liberdade”.(21)

As divagações do racionalismo as “variações” desta “religião nos limites da simples razão”, demonstram suficientemente a sua falsidade.

2 “A independência do homem, da família, da profissão e principalmente do Estado, em relação à Deus, à Jesus Cristo, à Igreja; é, segundo os pontos de vista, o naturalismo, o laicismo, o indiferentismo (...) da apostasia oficial dos povos que rechaçam a realeza social de Jesus Cristo, e desconhecem a autoridade divina da Igreja”.


20 Daniel Rops, “ A igreja das Revoluções” pg.63
21 Daniel Rops, “ A igreja das Revoluções” pg.63
22 Obra de Kant, 1793
Explicarei estes erros por algumas considerações:

O Naturalismo sustenta que o homem está limitado á esfera do natural e que de nenhuma
maneira está destinado por Deus à ordem sobrenatural. A Verdade é outra: Deus não criou o
homem em estado de pura natureza. Desde o começo Deus formou o homem em uma ordem
sobrenatural: “Deus, diz o Concílio de Trento, formou primeiro o homem em estado de
santidade e justiça” (Dz.° 788). Foi em conseqüência do pecado original que o homem foi
destituído da graça santificante, mas a Redenção mantém os desígnios de Deus: o homem
permanece destinado à ordem sobrenatural. Ser reduzido à ordem natural é para o homem um
estado de violência, que Deus não aprova. Eis que o ensina o Card. Pio, mostrando que o
estado natural não é mau em si, mais pela privação da ordem sobrenatural.

“Ensinareis então, o que a razão humana tem seu poder próprio e
suas atribuições essenciais; ensinareis que a virtude filosófica
possui uma bondade moral e intrínseca que Deus recompensa
nos indivíduos e nos povos por meio de alguns dons naturais e
temporais, algumas vezes incluídos em favores maiores. Mas
também ensinareis e provareis por meio de argumentos
inseparáveis da essência mesma do cristianismo, que as
virtudes naturais que as luzes naturais, são incapazes de
conduzir o homem a seu fim último, que é a glória celestial.

Ensinareis que o dogma é indispensável, que a ordem
sobrenatural da qual o autor de nossa natureza nos constituiu,
por um ato formal de sua vontade e seu amor, é obrigatório
e inevitável; ensinareis que Jesus Cristo não é facultativo e que
fora de sua lei revelada não existe, não existirá jamais o exato
meio filosófico e calmo onde todos, tanto almas de elite quanto
almas comuns, podem encontrar o descanso de consciência e
uma regra de vida.

Ensinareis que não basta que o homem faça o bem, mas que é
de grande importância que o faça em nome da fé, por um
movimento sobrenatural, sem o qual seus atos não alcançarão
o fim que Deus destinou, ou seja a felicidade eterna no
céu...”( 23)

Assim no estado da humanidade exatamente querido por Deus, a
sociedade não se pode organizar nem substituir afastada de Nosso
Senhor Jesus Cristo; é o que ensina São Paulo:

“Por Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, tudo foi
criado por Ele e para Ele; Ele é antes de todas as coisas e todas
subsistem por Ele” (CI 1,16).

23 Cardeal Pie, bispo de Poitiers, Oeuvres: T.II, págs. 380, citado por Jean Ousset, “Pour qu’il Regne”.

O desígnio de Deus é de “restaurar tudo em Cristo” (Eph.1,10) ou seja conduzir todas as coisas a uma só cabeça Cristo. O Papa São Pio X tomará estas mesmas palavras de São Paulo, como divisa: “omnia instaurare in Christo”, tudo instaurar, tudo restaurar em Cristo; não somente na religião, como também na sociedade civil.

“Não, Veneráveis Irmãos é necessário relembrar com energia
nestes tempos de anarquia social e intelectual, em que cada um
se coloca como mestre e legislador não se poderá construir a
sociedade de uma maneira diferente da que Deus a instituiu;
não se edificará a sociedade se a Igreja estabelece as bases
e dirige os trabalhos; não, a civilização não está para ser
inventada, nem uma sociedade nova para ser construída das
nuvens. Ela foi, ela é a civilização cristã, é a cidade católica.
Trata se somente de instaurar e restaurar sem cessar a
civilização em suas bases naturais e divinas, contra ataques
sempre renascentes da rebelião e da impiedade: “omnia
instaurare in Christo” (24)

Jean Ousset tem excelentes páginas sobre o naturalismo, em sua obra mestra “Pour Qu’il Regne”,
na segunda parte intitulada “as oposições à realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo”; em que ele
assinala três categorias de naturalismo, um “naturalismo agressivo” que nega mesmo a existência
do sobrenatural, aquele dos racionalistas; depois de um naturalismo moderado que não nega o
sobrenatural, mas recusa dar lhe proeminência porque sustenta que todas as religiões são
provenientes do sentimento religioso: é o naturalismo dos modernistas; finalmente o naturalismo
inconseqüente, que reconhece a existência do sobrenatural e sua proeminência divina, mas
considera como “matéria de opção”: é o naturalismo prático de muitos cristãos fracos.

O laicismo é um naturalismo político: sustenta que a sociedade pode e dever ser construída e que
pode subsistir sem levar em conta Deus e a religião, sem levar em conta a Jesus Cristo, sem
reconhecer seu direito de reinar, ou seja, de inspirar com doutrina toda a legislação
da ordem civil. Como conseqüência, os laicistas, querem separar o Estado da Igreja (o Estado não
favorecerá a religião católica e não reconhecerá os princípios cristãos como seus). E separa a
Igreja do Estado (a Igreja será reduzida a um direito comum de qualquer associação frente ao
Estado, e não se levará em conta sua autoridade divina nem sua missão universal). Como
conseqüência será estabelecida uma instrução chamada “educação pública” (às vezes obrigatória)
laica, quer dizer atéia. O laicismo é o ateísmo do Estado, porém sem este nome!

Voltarei a este erro, próprio do liberalismo e que goza dos favores da declaração do Vaticano II sobre a liberdade religiosa.

O indiferentismo proclama ser indiferente a prática de uma ou outra religião; Pio XI condena
este erro; “Todo homem é livre de abraçar e professar e religião que, guiado pela luz da razão, lhe
parecer verdadeira” (Syllabus, proposição condenada n°15); “



24 Carta “ Nosso Encargo Apostólico” de 25 de agosto de 1910, PIN 430.
Os homens podem achar no culto qualquer religião o caminho da salvação eterna” (propôs. °16); e
também “deve se ter fundadas esperanças na eterna salvação daqueles que não se acham de modo
algum na verdadeira Igreja de Cristo” (Syllabus, proposição condenada n°17).


É fácil descobrir as raízes racionalistas ou modernistas destas proposições. A Este erro se soma o
indiferentismo do Estado em matéria religiosa; por princípio, o Estado estabelece que não é capaz
de reconhecer a religião verdadeira (agnosticismo) e deve pois dar liberdade a todos os cultos.
Eventualmente concordará em dar religião católica um certo relevo por ser a da maioria dos
cidadãos, mas reconhece- la como verdadeira, dizem, seria restabelecer a teocracia. Pedir ao
Estado para julgar a verdade ou falsidade de uma religião seria atribuir lhe uma competência que
ele não tem.

Mons. Pio, antes de se tornar cardeal, ousou expor este grande erro ao imperador francês
Napoleão III, e lhe explicou a doutrina católica do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em uma entrevista memorável de valor inteiramente apostólico, o grande bispo dá ao
imperador uma lição de direito cristão, o chamado “direito público da Igreja” Vale a pena fechar
esse capítulo com esta conversa.

Foi em 15 de maio de 1856, nos diz Pe. Théotime de Saint Just, de quem tiro essa citação (25). Ao
imperador que se jactava de haver feito pela religião mais do que a Restauração, o bispo
respondeu:

“Apresso me em fazer justiça às disposições religiosas de Vossa Majestade e sei reconhecer,
Senhor, os serviços que ela prestou à Roma e à Igreja, principalmente nos primeiros anos de seu
governo. Talvez a restauração não tenha feito mais do que vós. Deixe me acrescentar que nem vós
nem a restauração fizeram por Deus o que deveria ser feito, porque nem um nem outro restaurou
seu trono, porque não renegaram os princípios da Revolução cujas conseqüências práticas,
entretanto, combateis. Porque o evangelho social em que se
inspira o Estado ainda é a declaração dos direitos do homem que não é mais do que a negação
formal dos direitos de Deus.

É direito de Deus governar tanto os Estados como os indivíduos. Não é outra coisa que o Nosso
Senhor veio procurar na terra. Ele deve reinar inspirando as leis, santificando os costumes,
esclarecendo o ensino, dirigindo os conselhos, regulando as ações tanto dos governos como dos
governados. Onde Jesus Cristo não exerce este reinado, há desordem e decadência.

25 Pe Théotime de Saint Just, “ La Royauté Sociale de N. S. Jesus Christ selon le Card. Pie”, Beauchesne, Paris, 1925, 2ª edição, pág. 117-121.
26 A Restauração é a volta da monarquia de Luiz XVIII entre a Revolução Francesa e o 1º Império. Esta Restauração consagrou o principio liberal da liberdade de culto.
27 Historie du Cardinal Pie, TI. Liv.II, cap. 2, pág. 698
Agora tenho o direito de vos dizer que Ele não reina entre nós, e que nossa constituição está longe de ser um estado cristão e católico. Nosso direito público estabelece que a religião católica é da maioria dos franceses, mais acrescenta que os outros cultos têm direito a uma igual proteção. Não é isto proclamar que Constituição protege igualmente a verdade e o erro? Sabeis, senhor, o que Jesus Cristo responde aos governos que se fazem culpados de tais contradições? Jesus Cristo, Rei do céu e da terra lhes responde: “e eu vos digo, governos que vos sucedeis derrubando vos uns aos outros. Eu também vos dou igual proteção. Dei ao imperador vosso tio, aos Bourbons, a Luiz Felipe, à República, e a vos também igual proteção será dada”.

E o imperador interroga o bispo: “Ainda pensais que nossa época comporta tal estado de coisas e que é chegado o momento de estabelecer este reino exclusivamente religioso que me pedis? Não vos parece Monsenhor, que seria desencadear todas as paixões ruins?”

“Senhor, quando os grandes políticos como Vossa majestade objetam que não é chegado o
momento, só me resta inclinar me, porque não sou um grande político. Mas sou bispo, e
como bispo lhe respondo: se não chegou o momento de reinar para Jesus Cristo, então
também não chegou, para os governos, o momentos de pendurar”.(27)

Para encerrar esses dois capítulos sobre os aspectos do liberalismo, gostaria de
ressaltar o que há de fundamental na emancipação que ele propõe aos homens, isolados ou
reunidos em sociedade. Como expliquei, o liberalismo é a alma de toda revolução, e é
igualmente, desde o seu nascimento no século XVI, o inimigo onipresente de Nosso Senhor
Jesus Cristo, o Deus Encarnado. Não há dúvida: posso afirmar que o liberalismo se identifica
com a revolução. O liberalismo é a revolução em todos os domínios, a revolução radical.
Mons. Gaume escreveu algumas linhas sobre a Revolução, que me parecem caracterizar
perfeitamente o liberalismo:

“Se arrancando sua máscara, pergunta se à Revolução: quem
és tu? Ela lhe dirá: eu não sou o que pensam. Muitos falam de
mim e poucos me conhecem. Não sou o carbonarismo, nem
motim, ... nem troca de monarquia por república. Nem
substituição de uma monarquia por outra, nem a pertubação
momentânea da ordem pública. Não sou nem os latidos dos
jacobinos, nem os furores da Montagne, nem a guerrilha nem a
pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem a
guilhotina, nem as execuções. Não sou nem Marat, nem
Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzani, nem Kassuth. Esses
homens são meus filhos, mas não eu. Essas coisas são minhas
obras, mas não eu. Esses homens e essas coisas são
passageiros mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por
toda ordem, que não tenha sida estabelecida pelo homem e na
qual ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a
proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos
de Deus. Sou a fundação do estado religioso e social na
vontade do homem em seu lugar. Eis porque me chamo Revolução,
ou seja, subversão...(28)
28 Mons. Gaume, “La Révolution, Rechersches Históriques”, Séc. Soc. Saint Paul, Lille, 1877, TI, pág. 18.Citado
por Jean Ousset, “Pour Qu’il Regne”, pág. 122.


Texto extraído do livro: DO LIBERALISMO À APOSTASIA
- A TRAGÉDIA CONCILIAR
Autor: MONSENHOR MARCEL LEFEBVRE
Tradução: IIDEFONSO ALBANO FILHO
Editora: PERMANÊNCIA
RIO DE JANEIRO 1991
Texto digitado por: PABLO BORGES

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