quinta-feira, 6 de março de 2008

JESUS CRISTO É REI DAS REPÚBLICAS?

Texto extraído do livro: DO LIBERALISMO À APOSTASIA - A TRAGÉDIA CONCILIAR

Não é a maioria que faz a verdade
é a verdade que deve fazer a maioria.
Ainda tenho muito a dizer sobre o liberalismo.


Mas gostaria que compreendessem bem que não são minhas opiniões pessoais que proponho.Por isso cito documentos dos papas e não sentimentos meus, que facilmente poderiam ser atribuídos a uma formação recebida no Seminário Francês de Roma.O Padre Le Floch, que era superior, teve com efeito uma reputação muito grande de tradicionalista.Dirão de mim: ‘ foi influenciado pelo que lhe foi dito no seminário!!’ Não nego esta influencia, mas também agradeço todos os dias a Deus o fato de me haver sido dado como superior e mestre o Pe.Le Floch.Ele foi acusado na época de fazer política; Deus sabe que é o oposto a um crime, o fazer a política de Jesus Cristo e suscitar homens políticos que usem todos os meios legítimos, inclusive jurídicos, para expulsar da sociedade os inimigos de Nosso Senhor Jesus Cristo (49).Na realidade o Pe. Lê Floch nunca se meteu com a política, nem sequer no pior momento do ‘complot’ armado contra a “Action Française” (50) e da crise que se seguiu quando eu era seminarista.


Por outro lado, o Pe.Le Floch nos falava constantemente do perigo do modernismo, do ‘silonismo’, do liberalismo.Baseando-se nas encíclicas dos papas, o Pe Lê FLoch chegou a firmar em nós uma convicção segura e sólida, baseada na doutrina imutável da Igreja, sobre o perigo destes erros.Desejo transmitir lhes esta mesma convicção, como uma chama que se transmite à posteridade, como uma luz que se preservará destes erros que reinam hoje mais do que nunca “in ipsis Ecclesiae venis et visceribus”, nas veias e mesmo nas entranhas da Igreja, como dizia São Pio X.


Vocês compreenderão assim que meu pensamento político pessoal sobre o regime que melhor convém, por exemplo, para a França, não tem muita importância. Os fatos falam por si mesmos: a monarquia francesa nunca conseguiu realizar o que conseguiu a democracia: cinco revoluções sangrentas (1789, 1830, 1848, 1870 e 1945), quatro invasões estrangeiras (1815, 1870, 1914 e 1940), duas desapropriações dos bens da Igreja, expulsões de ordens religiosas, supressão de escolas católicas, laicizações de instituições (1789 e 1901), etc. No entanto, dirão alguns, o Papa Leão XIII pediu o “ralliement” (51) dos católicos franceses ao regime republicano (52) ( que provocou uma catástrofe política e religiosa).Outros criticam esta atitude de Leão XIII, classificando a e a seu autor, de liberal. Não creio que ele fosse um liberal e muito menos um democrata.Acreditou apenas suscitar uma boa combinação para o bem da religião na França; mas vê se claramente que esquecia a origem da constituição irremediavelmente liberal, maçônica e anticatólica da democracia francesa.


(49) Não é porque bispos esquerdistas fazem política socialista ou comunista que a igreja deve se abster de fazer política!Ela tem o poder, sem duvida indireto, mas real, sobre a ordem temporal e a vida da cidade. O reino social de N.S.J.C. é uma preocupação essencial da Igreja.


(50) Jornal e movimento político dirigido por Charles Maurras, “L’ Action Francise” lutava baseada em vãs verdades naturais contra o democratismo liberal.Foi acusada falsamente de naturalismo.O Papa Pio XI, enganado, condenou-a. Pio XII devia levantar esta sanção.Porém o mal estava feito: 1926 marca na França uma etapa decisiva na “ocupação” da Igreja pela facção “católico liberal”.

(51) [N. do T.] “Ralliement” ou participação proposta por Leão XIII ao regime republicano francês. Significou o rompimento com a monarquia francesa e o afogamento da resistência católica.



(52) Cf. Encíclica “Au milieu dês solicitudes, de 16 de janeiro de 1892, aos bispos re fiéis da França.


A IDEOLOGIA DEMOCRÁTICA

Nascida do postulado liberal do individuo rei, a ideologia democrática se constrói em seguida, logicamente; os indivíduos passam ao estado social por um pacto convencional: o “contrato social” que é como diz: Rousseau, “uma alienação total de cada membro, com todos direitos em favor da humanidade”. Daí vem:
A necessária soberania popular: o povo é necessariamente soberano, tem o poder por si mesmo, e o conserva mesmo depois de haver eleito os governantes.



A ilegitimidade de todo regime que não tem por base a soberania popular ou cujos governantes dizem receber o poder de Deus.


Daí como conseqüência, na prática:


A luta para o estabelecimento universal da democracia.



A “cruzada das democracias” contra todo regime que faz referencia à autoridade divina, qualificando então como regime “absolutista”.Quanto a isto, o Tratado de Versalhes de 1919, que suprimia as ultimas monarquias verdadeiramente cristãs, foi uma vitória liberal e em especial maçônica (53).


O reino político das maiorias, que se supõe expressar a “sacrossanta e infalível” vontade geral.


Ante este democratismo que entra na Igreja pela colegialidade, só nos resta repetir: a maioria não faz a verdade. O que pode ser construído solidamente, fora da verdade e da verdadeira justiça para com Deus e o próximo??




CONDENAÇÃO DA IDEOLOGIA DEMOCRÁTICA PELOS PAPAS


Os papas não cessaram de condenar esta ideologia democrática. Leão XIII o fez “ex professo” em sua encíclica “Diuturnum”, da qual já lhes falei:



“Grande números de nossos contemporâneos seguem as pegadas daqueles que, no século passado, se outorgaram o título de filósofos, pretendendo que todo poder vem do povo; que em conseqüência a autoridade não pertence àqueles que a exercem senão a título de mandato popular, e com esta ressalva: que à vontade do povo pode sempre tirar de seus mandatários o poder que lhes havia sido delegado. E é nisso que os católicos se separam de seus novos mestres; eles fundamentam em Deus o direito de mandar, e o fazem daí derivar como de sua fonte natural e seu principio necessário.




Entretanto deve se notar que se trata de designar aqueles que devem governar o domínio publico, em alguns casos essa escolha pode ser feita por eleição e pela preferência da maioria, sem que a doutrina católica ponha ai qualquer obstáculo. Esta eleição, com efeito, determina a pessoa do soberano, não lhe conferindo o direito de soberania; não se constitui a autoridade, decide-se quem deve exercê-la”(PIN 94).



(53) Cf. H. Le Caron, “Le plan de Domination Mondiale de la Contre eglise”, pág. 22.


Logo toda autoridade vem de Deus, mesmo em democracia!
Toda autoridade vem de Deus, esta é uma verdade revelada e Leão XIII a estabelece solidamente pela Sagrada Escritura, a tradição dos Padres, e finalmente pela razão: uma autoridade que emanasse somente do povo, não teria força para obrigar, em consciência, sob pena de pecado (54).




“Nenhum homem tem em si ou por si o necessário para forçar, por uma obrigação de consciência, o livre querer de seus semelhantes. Somente Deus como criador e legislador universal possui tal poder; os que exercem o poder têm necessidade de recebê-lo dELE e exercê-lo em seu nome” (55).


Para encerrar, Leão XIII mostra a falsidade do contrato social de Rosseau que é à base da ideologia democrática contemporânea.


A IGREJA NÃO CONDENA O REGIME DEMOCRÁTICO


Gostaria de lhes mostrar agora que nem toda democracia é liberal. Uma coisa é a “ideologia” democrática, outra é o regime democrático; a Igreja condena a ideologia, mas não o regime que é a participação do povo no poder.


São Tomás já justificava a legitimidade do regime democrático:


“Que todos tenham uma certa parte no governo ajuda para que seja conservada a paz do povo. Todos gostam desta organização e procuram conservá-la, como diz Aristóteles no livro II de sua ‘Política’”(56).


Sem preferir a democracia, o Doutor comum considera que, concretamente, o melhor regime político é uma monarquia na qual todos os cidadãos têm uma certa participação no poder elegendo, por exemplo, aqueles que vão governar sob as ordens do monarca; este é, diz São Tomás, “um regime que alia bem a monarquia, a aristocracia e a democracia” (57).


A monarquia francesa do Antigo Regime, como muitas outras, era mais ou menos deste tipo apesar do que dizem os liberais; existia então entre o monarca e a multidão de súditos toda uma ordem e hierarquia de inúmeros corpos intermediários que podiam expor suas opiniões diante das autoridades superiores quando necessário.


A Igreja católica não dá preferência por este ou aquele regime; admite que os povos escolham a forma de governo mais adaptado à sua índole e as circunstâncias:


“Nada impede à Igreja aprovar o governo de um só ou de vários, sempre e quando o governo seja justo e ordenado para o bem comum. Por isto, em absoluto, não está proibido aos povos esta ou aquela forma política que melhor se adapte à sua índole ou as suas tradições e costumes”(58).


(56) Suma Teol. I e II /105 /1
(57) Idem.
(58) Leão XIII, Encíclica “Diuturnum”, PIN. 94
(59) Cf. “Diuturnum” citado acima, e Mons. de Ségur, a “Revolução”, pág.73.



O QUE É UMA DEMOCRACIA NÃO LIBERAL?


Confesso que uma democracia não liberal é uma coisa rara, hoje desaparecida, mas também não é completamente um sonho, como prova a Republica de Cristo Rei, aquela do Equador de Garcia Moreno no século passado.


Vejamos então as características de uma democracia não liberal:




1-Primeiro princípio: o princípio da soberania popular.



Em primeiro lugar se limita o regime democrático e se respeita a legitimidade da monarquia disso, é radicalmente diferente daquela democracia de Rosseau: o poder não é do povo nem pela origem nem definitivamente: O poder vem de Deus. De Deus, autor da natureza social do homem, e não dos indivíduos-reis. Após a eleição dos governantes pelo povo, este povo não conserva o exercício da soberania (59).



Primeira conseqüência: o governo não é mais uma multidão amorfa de indivíduos, mas de um povo organizado: os chefes de família (que poderão legislar diretamente em Estados muito pequenos, como Appenzell na Suíça), cidadãos e comerciantes, industriais e trabalhadores, grandes e pequenos proprietários, militares e magistrados, religiosos, sacerdotes e bispos: como diz Mons. de Ségur, é “a nação com todas as suas forças vivas, constituída em uma representação séria e capaz de expressar seus sentimentos por seus legítimos representantes, de exercer livremente seus direitos” (60). Por sua vez, Pio XII distingue bem o povo e a massa:



“Povo e multidão amorfa ou como costuma se dizer massa, são dois conceitos diferentes. O povo vive e se movimenta por si mesmo; a massa é em si mesma inerte, e só pode ser movida pelas forças externas. O povo vive na plenitude da vida dos homens que o compõem, da qual cada um em seu lugar e de modo próprio, é uma pessoa consciente de suas responsabilidades e convicções. A massa, pelo contrário, espera o impulso de fora, joguete fácil nas mãos de qualquer um que procure explorar os instintos e as impressões e pronta a seguir esta bandeira hoje e outra amanhã” (61).



Segunda conseqüência: os governantes eleitos, mesmo se são chamados, como diz São Tomás, “vigários do povo”, o são somente no sentido de que fazem o que o povo não pode fazer por si mesmo, ou seja, governar.Porém o poder vem de Deus “de quem toda paternidade no céu e na terra recebeu seu nome”(Eph. III, 15).Os governantes são responsáveis por seus atos em primeiro lugar diante de Deus, de quem são ministros, e depois diante do povo, para o bem do qual eles governam.
2- Segundo principio: Os direitos de Deus (e os de sua Igreja, em uma nação católica), são colocados como base da constituição. O Decálogo então inspira toda legislação.



Primeira conseqüência: a “vontade geral” é nula, se vai contra os direitos de Deus. A maioria não faz a verdade, ela deve se manter na verdade, sob pena de uma perversão na democracia.Pio XII com razão enfatizava o perigo inerente ao regime democrático e contra o qual a constituição deve reagir: o perigo da despersonalização, da massificação e da manipulação da multidão por grupos de pressão e maiorias artificiais.



(60) Op. Cit. Pág. 73.
(61) Radio mensagem de Natal, 24 de dezembro de 1944.



Segunda conseqüência: a democracia não é laica, mas claramente cristã e católica. Ela é conforme a doutrina social da igreja, no que concerne à propriedade privada, o principio de subsidiariedade, e a educação, deixada aos cuidados da Igreja e dos pais, etc.


Resumindo: a democracia, como qualquer outro regime, deve realizar o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. A democracia também deve ter um Rei: Jesus Cristo.



Texto extraído do livro: DO LIBERALISMO À APOSTASIA - A TRAGÉDIA CONCILIAR
Autor: MONSENHOR MARCEL LEFEBVRE
Tradução: IIDEFONSO ALBANO FILHO
Editora: PERMANÊNCIA
RIO DE JANEIRO 1991
Capitulo VII, pág. 35
Texto digitado por: Mércia Borges.

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