terça-feira, 18 de março de 2008

O LIBERALISMO, PRINCÍPIOS E APLICAÇÕES

PRIMEIRA PARTE

CAPITULO I

AS ORIGENS DO LIBERALISMO

Se vocês não lerem muito, cedo ou tarde serão traidores, porque não terão
compreendido a raiz do mal”. Com estas fortes palavras um de meus
colaboradores (4) recomendava aos seminaristas de Ecône a leitura de boas obras que tratem do liberalismo.


Com efeito, não se pode compreender a crise atual da Igreja nem conhecer a verdadeira cara dos que ocupam a Roma atual, e em conseqüência ver que atitude tomar perante os fatos, se não se procura as causas desta crise, se não se estuda seu curso histórico, e não se descobre sua fonte primeira neste liberalismo condenado pelos papas dos últimos séculos.
Com efeito, não se pode compreender a crise atual da Igreja nem conhecer a verdadeira cara dos que ocupam a Roma atual, e em conseqüência ver que atitude tomar perante os fatos, se não se procura as causas desta crise, se não se estuda seu curso histórico, e não se descobre sua fonte primeira neste liberalismo condenado pelos papas dos últimos séculos.
Nossa luz: a Voz dos Papas
Partiremos das origens, como faziam os Soberanos Pontífices, ao denunciarem as graves perturbações em curso. Além de acusarem o liberalismo, os papas vão mais longe no passado e todos, desde Pio VI até Bento XV, falavam da crise reduzindo a para a luta encetada contra a Igreja no século XVI pelo protestantismo e pelo naturalismo, do qual aquela heresia foi a causa e a primeira propagadora.
O renascimento e o naturalismo

O naturalismo já se encontrava no Renascimento, que no esforço para recuperar as riquezas das antigas culturas pagãs e particularmente a cultura e a arte dos gregos, conduziu à exaltação exagerada do homem, da natureza e das forças naturais. Exaltando a bondade e o poder da natureza, menosprezava-se e desaparecia do pensamento dos homens a necessidade da graça, a destinação da humanidade para a ordem sobrenatural, a luz trazida pela Revelação. Sobre o pretexto de arte quiseram introduzir por toda parte, até nas igrejas, esse nudismo (sem exagero se pode chamar de nudismo) que domina na Capela Sistina em Roma. Consideradas sob o ponto de vista artístico, estas obras têm seu valor; porém nelas prima o aspecto sensual da exaltação da carne, totalmente em oposição aos ensinamentos do Evangelho: “pois a carne luta contra o espírito, diz São Paulo e o espírito luta contra a carne”. (Gal. V: 17)

Não condeno esta arte se restrita aos museus mundanos, mas não vejo nela um meio de exprimir a verdade da Redenção, ou seja, uma feliz submissão da natureza redimida à graça. Já na arte barroca da contra reforma católica, meu julgamento é bem diferente, especialmente nos países que resistiram ao protestantismo: o barroco utilizará ainda anjinhos rechonchudos mas esta arte de puro movimento e expressões às vezes patéticas é um canto de triunfo da Redenção, um canto de vitória do catolicismo sobre o pessimismo de um protestantismo frio e desesperado.

(4) Padre Paul Aulagnier, 17 de setembro de 1981.

O Protestantismo e o Naturalismo

Pode parecer estranho e paradoxal chamar o protestantismo de naturalista. Nada há em Lutero de exaltação à bondade intrínseca da natureza porque, segundo ele, a natureza está irremediavelmente decaída e a concupiscência é invencível. No entanto a opinião excessivamente niilista que o protestante tem sobre si mesmo, desemboca em um naturalismo prático: na intenção de menosprezar natureza e exaltar o poder “só da fé”, relegam a graça divina e a ordem sobrenatural ao domínio das abstrações. Para os protestantes a graça não opera uma verdadeira renovação interior; o batismo não é a restituição de um estado sobrenatural habitual, é somente um ato de fé em Jesus Cristo que justifica e salva. A natureza não é restaurada pela graça, permanece intrinsecamente corrompida; e somente a ordem obtém de Deus que deite sobre nossos pecados o manto pudico de Nóe. Todo o organismo sobrenatural que o batismo agrega à natureza enraizando nela a graça, todas as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo são reduzidos a nada, reduzidos a um só ato forçado de fé, confiança em um redentor que gratifica somente para retirar-se para longe a criatura, deixando um abismo intransponível entre o homem definitivamente miserável e Deus transcendente três vezes santo. Esse pseudo supernaturalismo, como chama o Padre Garrigou Lagrange, deixa finalmente o homem, apesar de haver sido redimido, sujeito somente à força de suas aptidões naturais; fatalmente se afunda no naturalismo. Deste modo os extremos opostos se unem! Jacques Maritain exprime bem o desenlace naturalista do luteranismo:


“A natureza humana terá que rechaçar como um inútil acessório teológico o manto de uma graça que não é nada para ela e cobrir-se com sua fé confiança para
converter-se em uma bela besta livre, cujo infalível e continuo progresso encanta
hoje o universo inteiro”. (5)

Esse naturalismo se aplicará à ordem civil e social: ficando a graça reduzida a um sentimento de fé confiança, a Redenção será somente uma religiosidade individual e particular, sem influência na vida pública. A ordem pública, econômica e política fica condenada a viver sem Nosso Senhor Jesus Cristo. O protestante busca no seu êxito econômico o critério de sua justificação diante de Deus; assim, de bom grado escreverá sobre sua porta: “Rendei honras a Deus por teus bens, oferecei as primícias de seus ganhos, então teus celeiros se encherão e teus tonéis transbordarão de vinho”. (Prov. III, 9 10)

Jacques Maritain escreveu excelentes páginas sobre o materialismo do protestantismo, que dará nascimento ao liberalismo econômico e ao capitalismo:

“Por trás dos chamados de Lutero ao Cordeiro que salva, por trás de seus movimentos de confiança e sua fé no perdão dos pecados, há uma criatura humana que levanta a cabeça e faz seus negócios no lodaçal em que está submersa por causa do pecado de Adão! Desenvolver-se-á no mundo, seguirá a sede do poder, o instinto dominador, a lei deste mundo que é o seu mundo. Deus será somente um aliado, um poderoso”.(op.cit.pág.52, 53)

(5) Trois Reformateurs, pág. 25.

O resultado do protestantismo foi que os homens se apegaram ainda mais aos bens deste mundo, esquecendo de seus bens eternos. E se um certo puritanismo chega a exercer uma vigilância exterior sobre a moralidade pública, não impregnará os corações do espírito verdadeiramente cristão, que é um espírito sobrenatural, onde reina a primazia do espiritual. O protestantismo, necessariamente, será conduzido a proclamar a emancipação do temporal em relação ao espiritual. Essa emancipação, justamente, vai reencontrar-se no liberalismo. Os papas tiveram portanto muita razão em denunciar este naturalismo de inspiração protestante como sendo a origem do liberalismo que transtornará a cristandade em 1789 e 1848. Assim diz Leão XIII:

“Esta ousadia de homens tão falsos que ameaça cada dia a sociedade civil com
maiores ruínas, e que estremece a todos com inquietante preocupação, tem sua
causa e origem nas peçonhentas doutrinas que, difundidas entre os povos com boas
sementes em tempos passados, produziram em seu tempo frutos tão danosos. Bem
sabeis, Veneráveis irmãos, que a guerra cruel iniciada contra a fé católica pelos
inovadores, desde o décimo sexto século e que vem recrudescendo diariamente
até o presente, tinha por fim unicamente afastar toda revelação e toda ordem
natural, para abrir a porta aos eventos e delírios da razão”.(6)

E posteriormente, o Papa Bento XV:

“Desde os três primeiros séculos e desde as origens da Igreja, período em que o
sangue dos cristãos fecundou toda terra, pode se dizer que nunca a Igreja correu
tão grande perigo como o que se manifestou nos fins do século XVIII. Então uma
filosofia em delírio, a continuação da heresia e da apostasia dos inovadores,
adquiriu sobre os espíritos um poder de sedução, provocando transformação total,
com o propósito determinado da destruir as bases cristãs da sociedade, não
somente na França, mas pouco a pouco em todas as nações”. (7)

Nascimento do Naturalismo Político

O protestantismo constituiu um ataque muito duro contra a Igreja e ocasionou um desagregamento profundo na cristandade do século XVI, porém sem conseguir impregnar as nações católicas com o veneno de seu naturalismo político e social. Isso só aconteceu quando este espírito secularizante chegou às universidades e em seguida àqueles que chamamos “filósofos das luzes”.

Filosoficamente o protestantismo e o positivismo jurídico têm origem no nominalismo surgido com a decadência da Idade Média (séc. XIV) que conduz tanto à Lutero com sua concepção puramente extrínseca e nominal da Redenção, como a Descartes, com sua idéia de uma lei divina indecifrável submetida somente ao arbítrio da vontade de Deus. Com São Tomás de Aquino, toda a filosofia cristã afirmativa, ao contrário, a unidade da lei divina eterna e da lei humana natural: “A lei natural é tão somente uma participação da lei eterna nas criaturas racionais”. (Suma Teológica I II, 91, 2).


(6) Encíclica “Quod Apostólici” de 28 de Dezembro de 1878.

(7)Carta “Anne Jam Exeunte” de 7 de Março de 1917, Paz Interior das Nações (PIN 486) vide bibliografia

Mas com Descartes já se põe uma ruptura entre o direito divino e o direito humano natural. Seguindo a Descartes, os universitários e juristas não tardariam a tomar o mesmo caminho cismático.

Assim diz Hugo Grotius (1625), citado por Paul Hazard:
“E o direito divino? Grotius procura salvaguardá-lo: o que acabamos de dizer,
declara, valeria mesmo se concordássemos ( o que não pode ser concedido sem um crime ) que não há Deus e que os assuntos humanos não são objeto de seus
cuidados. Não há duvida alguma que Deus e a Providência existem, sendo portanto uma fonte de direito além da que provém da natureza. ‘Mesmo este direito natural, pode ser atribuído a Deus, porque ele quis que estes princípios existissem em nós’.

A Lei de Deus, a lei da natureza..., continua Paul Hazard, esta fórmula dupla nãoé Grotius que inventa (...) a Idade Média já a conhecia. Onde esta seu caráter de
novidade? De onde vem que seja criticada e condenada pelos doutores? Para quem é luminosa? A novidade consiste no aparecimento da separação de dois fins; em sua oposição, que tende a se afirmar; em uma tentativa de conciliação posterior, que por si só supõe a idéia de ruptura”. (8)

O jurista Pufendorf (1672) e o filosofo Locke (1689) darão o ultimo toque para a secularização do direito natural. A filosofia das luzes imagina “um estado de natureza” que nada tem haver com a filosofia cristã e que culmina com o mito do “bom selvagem” de Jean Rosseau. A lei natural fica reduzida a um conjunto de sentimentos que o homem tem de si mesmo e que são compartilhados pela maior parte dos outros homens; em Voltaire encontra-se o diálogo seguinte?

B: O que é a lei natural?
A: O instinto que nos faz sentir a justiça.
B: A que você chama justo e injusto?
A: Ao que assim parece para o universo inteiro. (9)

Tal conclusão é o fruto de uma razão desorientada, que já na ânsia da emancipação em relação a Deus e à sua revelação cortou as ligações com os princípios da ordem natural, reforçados pela revelação divina sobrenatural e confirmados pelo magistério da Igreja. Se a Revolução separou o poder civil do poder da Igreja, é porque ela originariamente já havia separado naqueles que se chamam filósofos, a fé e a razão. Vem a propósito relembrar o que ensina a respeito deste ponto, o Concilio Vaticano I (primeiro):

“Nunca se pode nunca encontrar discordância entre a fé e a razão, pois elas se prestam mútua ajuda: a reta razão demonstra as bases da fee, esclarecida por ela, cultiva a ciência das coisas divinas; e a fé, por sua vez, livra e defende a razão dos erros e lhe proporciona inúmeros conhecimentos”. (10)

(8) “La Crise de la Conscience Européenne, 1860 1715”, Fayard, Paris, 1961; 3ª parte, cap. 3.
(9) Voltaire, Diálogos Filosóficos, A.B.C., 1768, “Quarto Diálogo, Da Lei natural e da Curiosidade” citado por Paul Hazard, op. cit.
(10) Const. De Fide Catholica, “Dei Filius”, Dz nº 1799.

Mais exatamente podemos dizer que a Revolução se fez em nome da deusa Razão, da razão deificada, da razão que se faz norma suprema do verdadeiro e do falso, do bem e do mal.

Naturalismo, Racionalismo, Liberalismo

Desde já, podemos ver como todos os erros estão entrelaçados uns com os outros: liberalismo, naturalismo, racionalismo, são somente aspectos complementares do que se deve chamar Revolução. Onde a reta razão, esclarecida pela fé, vê somente harmonia e subordinação, a razão deificada cava abismos e levanta muralhas: a natureza sem a graça, a prosperidade material sem a procura dos bens eternos, o poder civil separado do poder eclesiástico, a política sem Deus nem Jesus Cristo, os direitos do homem contra os direitos de Deus , finalmente a liberdade sem a verdade.

Com este espírito se fez a Revolução, que vinha se preparando a mais de dois séculos, como procurei mostrar, mas somente no fim do século XVIII culmina e dá seus frutos decisivos: os frutos políticos como resultado dos trabalhos dos filósofos, dos enciclopedistas e de uma extraordinária atividade da maçonaria (11), que em poucas décadas havia penetrado e estabelecido núcleos em toda classe dirigente.

A Maçonaria Propagadora destes Erros

O Papa Leão XIII nos mostra em “Quod Apostolici”, encíclica já citada, e também em “Humanum Genus” de 20 de agosto de 1884 sobre a ceita dos maçons, com que precisão, com que clarividência, os Soberanos Pontífices denunciaram esta empresa:

“Em nossos dias os malfeitores parecem conspirar em conjunto e lutar com maior força, guiados e auxiliados por uma Sociedade que chamam dos Maçons,
firmemente constituída e muito difundida (...). os Romanos Pontífices, nossos
predecessores, zelando cuidadosamente pela salvação do povo cristão,
reconheceram logo quem era e o que queria este inimigo, assim que ele começou a
sair das trevas de sua conjuração oculta, para se lançar ao ataque em plena luz do dia”.

Leão XIII cita então os papas que já haviam condenado a maçonaria: Clemente XII, na encíclica “In Eminenti” de 27 de Abril de 1738 lança uma excomunhão contra os maçons; Bento XIV renova esta condenação na encíclica “Providas” de 16 de Março de 1751; Pio VII pela encíclica “Ecclesiam” de 13 de Setembro de 1821 acusa especialmente os “Carbonari”; Leão XII em sua Constituição Apostólica “Quo Graviora” de 13 de Março de 1826 denuncia a sociedade secreta “A Universitária” que procura perverter a juventude; Pio VIII na “Triditi” de 24 de Março de 1829, e Pio IX na Alocução Consistorial de 25 de Setembro de 1865 e na encíclica “Quanta Cura” de 8 de Dezembro de 1864, falaram no mesmo sentido.

Posteriormente, deplorando a pouca atenção dispensada pelos governantes apesar de tantas advertências, Leão XIII constata os espantosos progressos da seita:

“Vemos como resultado, que no período de um século e meio, a seita dos maçons fez incríveis progressos. Empregando simultaneamente a astúcia e a audácia, invadiu todos os setores da hierarquia social e começou a tomar, no interior dos Estados modernos, um poder que equivale à soberania”.


O que ele diria hoje, quando todos os governos obedecem aos decretos das Lojas Maçônicas! (12). Agora mesmo, no assalto à Hierarquia da Igreja, o espírito maçônico e a própria maçonaria progridem solidamente. Voltaremos ao assunto.

O que é então o espírito maçônico? Eis em poucas palavras o que diz o senador Goblet d’ Aviello membro do Grande Oriente da Bélgica, falando na loja dos Amigos Filantrópicos de Bruxelas em 5 de Agosto de 1877:

“Digam aos neófitos que a Maçonaria...é antes de tudo uma escola de vulgarização e aperfeiçoamento , uma espécie de laboratório onde as grandes idéias do momento vêm a se combinar e se firmar para se espalhar pelo mundo profano de uma forma palpavél e prática. Digam-lhes em uma palavra, que somos a Filosofia do Liberalismo”.

Fique então claro, caros leitores, que embora não a mencione sempre, a maçonaria é o centro dos temas que lhes falarei em todos os capítulos seguintes.

(12) Sem excluir os países comunistas, visto que os partidos comunistas são simplesmente sociedades maçônicas, com a única diferença que nestes países elas são legais
.

Texto extraído do livro: DO LIBERALISMO À APOSTASIA - A TRAGÉDIA CONCILIAR
Autor: MONSENHOR MARCEL LEFEBVRE
Tradução: IIDEFONSO ALBANO FILHO
Editora: PERMANÊNCIA
RIO DE JANEIRO 1991
Capitulo I, pág. 10.
Texto digitado por: Mércia Borges.

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